sábado, 16 de março de 2013
sexta-feira, 1 de março de 2013
O ESTAI E OS TERMINAIS NORSEMAN
Olá Marujos,
Tenho visto muitas mensagens de e-mail comentando incidentes recentes envolvendo o rompimento de terminais Norseman. Já faz um tempo que gostaria de escrever algo a respeito e que acho muito importante e pode ser um motivo da redução da vida útil dos terminais
A montagem do terminal Norseman tem umas particularidades e tem que ser muito bem feita, sob o risco de acontecer rompimentos que podem explicar o que temos lido recentemente por aí.
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| Um esticador com um terminal Norseman em um de suas extremidades. |
Para quem nunca teve a oportunidade de ver como é um terminal Norseman, a foto acima, de um esticador que tenho aqui e que ainda não troquei no barco, mostra as partes que compõem a peça. O terminal possui uma pecinha cônica dentro dele cuja montagem correta é fundamental, não só para a segurança do estai, como também para a durabilidade da peça.
Antes de explicar a montagem e os cuidados fundamentais para não deixar o terminal ser corroído precocemente, cabe mostrar como o cabo de aço dos nossos estais são feitos.
Na imagem ao lado (extraída do site do fabricante de cabos Morsing Carl Stahl - http://www.carlstahl.com.br), o cabo de aço utilizado em estaiamentos é o primeiro da lista (Cordoalha - 1x19). Percebe-se que ele é composto por uma espécie de 2 cabos enrolados - um envolvendo o outro. Pois ele é exatamente assim, com a particularidade de serem enrolados em sentidos opostos, com o objetivo de se evitar que o cabo de aço do estai se desenrole por algum motivo, ou com o passar do tempo. A cordoalha interior é enrolada no sentido horário e a exterior, no sentido anti-horário.
Bem, entendida como é a composição do cabo de aço de um estai, vamos entender agora pra que serve aquela pecinha cônica de cobre que vai por dentro do terminal Norseman e a montagem do terminal no cabo de aço.
Para encaixar a ponta do cabo dentro do terminal, gerando um atrito suficiente que, com a pressão, não deixe que o cabo saia dali, é utilizado o cone por dentro do cabo de aço, de forma a expandi-lo. Primeiro passa-se a ponta roscada do terminal pelo cabo de aço. Em seguida, desenrola-se a parte externa do cabo até a cordoalha interna ficar exposta. Enfia-se essa cordoalha interna por dentro do cone e depois enrola-se novamente a cordoalha externa, cobrindo tudo. É importante que sobre aproximadamente 5mm da cabo enrolado, além do cone. Feito isso, o material está pronto para ser roscado o terminal. O grande macete agora é preencher todo o corpo do terminal, o cabo de aço e tudo mais que for ficar dentro do terminal com silicone, ou Sikaflex etc. Isso é fundamental para que não se acumule água dentro do terminal. Uma vez roscada a peça, seu terminal está montado e pronto para uso.
Não obstante o desgaste natural pelo tempo de uso dos estais, que pode levar ao seu rompimento, algumas considerações importantes sobre esses serviços de montagem é que nem sempre aquele "rabicho" no cabo de aproximadamente 5mm, citado acima, é respeitado. O risco do cabo escapar de dentro do terminal aumenta enormemente por esse descuido. Eu mesmo já passei por isso e felizmente nada de mais aconteceu, pois o meu escapuliu na primeira pressão que dei.
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| Um terminal rompido com indício de corrosão de dentro pra fora |
Talvez a outra consideração importante e um provável grave motivo para as rupturas que vimos recentemente, seja a falta (ou desgaste) do silicone (ou sikaflex) vedando o interior dos terminais. Sabemos que entra muita água salgada ali, seja dos borrifos da velejada, seja simplesmente pela mão molhada de algum tripulante que segurou no brandal. O fato é que aquele é um ponto que passa despercebido nas limpezas feitas no barco e cujo acúmulo de água salgada pode acelerar a corrosão da peça, enfraquecendo-a e podendo resultar no pior. Fiquem atentos!!!
Bem, este post está longe de ser o diagnóstico para os desagradáveis incidentes vividos pelos colegas de mar, nem se tem essa pretensão. A intensão é somente contribuir com mais alguns possíveis motivos que possam ter levado ao ocorrido.
Bons Ventos e até a próxima.
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sábado, 23 de fevereiro de 2013
DE VOLTA AO PARAÍSO
Olá Pessoal,
Finalmente tirei, na semana passada, o gesso da mão. Por conta do tempo que fiquei imobilizado, não pude ir à Angra cuidar do barco, totalizando longos 2 meses distante das velejadas no paraíso.
Na 6ª feira passada, juntamente com meu amigo Gustavo, fizemos um "bate e volta" à Angra para dar uma limpeza no barco, ligar o motor e, claro, dar uma voltinha. Acabou que conseguimos fazer as tarefas e ainda deu tempo de atravessar para o Sítio Forte e almoçar no Bar da Telma, voltando pra Niterói no mesmo dia.
| Gustavo (em pé) e o S. Orlando formaram comigo a tripulação do MYSTIC para esse passeio. |
Com o sucesso da empreitada da semana passada, resolvemos repetir o "bate e volta" e voltamos à Angra ontem. Para esse passeio, convidei também meu ex-sogro, com quem mantenho contato até hoje e uma pessoa que gosto muito - um segundo pai para mim. Ele possui um veleiro na região também, mas praticamente não veleja, talvez por falta de companhia de quem entenda um pouco e, por causa disso, é mais um motivo para eu levá-lo em meus passeios.
Chegamos em Angra por volta de 10h, comemos um sanduíche e zarpamos com destino à Lagoa Verde, na Ilha Longa. A idéia era fazer um pit stop para um mergulho e seguir para a Praia da Tapera, para mais um almoço na Telma.
A Lagoa Verde é, na verdade, um cantinho espremido entre a Ilha Longa e a Ilha Grande. Suas águas são indecentemente transparentes e de um tom esverdeado muito bonito.
Como ainda era relativamente cedo, não havia vento e por isso motoramos até lá. Pra falar a verdade, chegamos na Lagoa Verde junto com a entrada de um S/SW médio, que acabou nos desestimulando a parar, por causa das condições que poderiam piorar e também por causa de duas escunas que lotavam o local.
Da Longa até o Sítio Forte foi uma velejada agradável, apesar dos ventos bastante rondados daquele canto. Chegamos na Tapera e logo desembarcamos, pois o calor era forte e a água estava numa temperatura perfeita para um mergulho. Pedimos a famosa lasanha de peixe da Telma e fomos para dentro d'água.
Enquanto almoçávamos, começamos a escutar trovoadas vindas do continente e notei que o tempo já estava bem escuro pras bandas do clube. Terminamos de almoçar e logo zarpamos, pois ainda tinha um ventinho razoável e a velejada de volta prometia.
Partimos do Sítio Forte com destino ao clube já cercados de chuva por todos os lados. O vento ainda soprava honestamente e por isso cortamos o motor e abrimos as velas. Por um descuido na hora de desligar a chave, acabamos desligando um automático que, a rigor, nunca funcionou direito, mas que se desligado, corta a ignição. No momento que o vento fraquejou, não teve santo que fizesse o motor ligar. Praticamente velejamos com ventos inconstantes e algumas pancadas de chuva até próximo do clube, quando após ter trocado bateria, verificado tudo que poderia ter quebrado, lembrei do bendito botão. A chegada, embora molhada, foi tranquila e já quase sem vento.
| Óleo? Detritos? Só sei que é triste ver isso na Ilha Grande |
A nota triste do passeio foi a enorme quantidade de peixes mortos, exalando um mau cheiro terrível que passamos na saída do clube e uma mancha esquisita que vimos quando nos aproximávamos da Lagoa Verde. Quando retornávamos para o clube, cruzamos com uma enorme traineira dispensando mais de uma tonelada de pequenos peixes mortos na água. Depois, esses mesmos pescadores são os primeiros a reclamar que suas pescarias não são mais tão fartas e culpam a poluição e o progresso por isso. Talvez se não matassem tantos peixes pequenos, hoje haveria mais disponibilidade de pescado.
Bons Ventos e até a próxima!
| Eu, S. Orlando e o Jarbas, nosso timoneiro oficial |
| As verdes águas da Lagoa Verde |
| O dia estava lindo |
| S. Orlando caminhando na Praia da Tapera |
| MYSTIC mais uma vez na enseada do Sítio Forte |
| Gustavo era só curtição |
| Eu e meu querido MYSTIC |
| A tripulação e o MYSTIC ao fundo |
| Velejada de retorno |
| Já na poita, se secando e arrumando para ir embora |
domingo, 10 de fevereiro de 2013
UM CRUZEIRO A 20 METROS DO CAIS
Olá amigos,
Quando se fala em velejar, qual prazer te satisfaz? Muito provavelmente a maioria de nós vai imaginar um sonho normalmente distante, ou quase inatingível para muitos velejadores - algo como um cruzeiro em alguma ilha paradisíaca, uma volta ao mundo etc.
Às vezes, não nos tocamos que, guardadas as devidas proporções, estar a bordo aqui, ali, ou lá, é praticamente a mesma coisa. O barco é o mesmo, os equipamentos idem... Em alguns casos, estar a bordo perto de casa pode até ter suas vantagens.
Numa manhã ensolarada de um dia desses, estava sentado na beira do cais do meu clube, observando alguns veleiros serenamente adormecidos em suas poitas, quando, de um deles - o Araken, sai o Elmo e dá uma baita espreguiçada. Ele pegou o botinho e veio ao meu encontro, me dar bom dia:
- Elmo, o que você tá fazendo aí a essa hora? - perguntei.
- Ué? Dormindo a bordo. - ele retrucou...
Lembrei que o Elmo e sua esposa costumam passar o final de semana a bordo com uma certa frequência ali mesmo, na poita, em frente ao clube. Normalmente eles saem para uma velejada pelas redondezas, mas sempre retornam à poita. Lembrei, também, que eu mesmo já havia feito algumas poucas vezes, esse "passeio". No meu caso, quase sempre pernoitava na minha poita quando desejava sair muito cedo no dia seguinte para algum lugar. Mas esse não era o objetivo do Elmo.
Bem, como achei uma sacada legal esse aproveitamento que ele e sua esposa dão ao barco, resolvi ouvir dele o que pensa sobre essa forma de curtir o barco. Segue abaixo o sempre bem humorado e perspicaz texto do nosso amigo cruzeirista:
"Velejar é uma das poucas artes que exige algumas doses de um pouco de tudo...
A maioria dos meus amigos velejadores gostam mesmo é de uma boa dose de adrenalina e uma sede medonha (é porque vez por outra todos de um barco e de outro gritam por água). É incrível ver os barcos se aproximarem (espera-se que joguem um pra o outro os embornais repletos do tal líquido), cascos quase se tocam e o grito de água aumenta, mas nada ocorre. Quer dizer: somente uma xingação, quase beirando ao xingamento, eclode no ar!
Às vezes tenho a plena certeza de que nenhum deles aprendeu os ensinamentos do RIPEAM. Certamente não manobrariam assim tão perto uns dos outros... Tenho certeza que, num veleiro, as idades diminuem. Parecem adolescentes... tanto no riso (entenda que é com "S", pois se fosse um "Z" a situação não estaria pra tantas risadas) quanto nos impropérios!!!
Rio do verbo rir..
Velejar exige o riso como condição "sine qua non" da felicidade intrínseca do velejo, posto que o importante (a menos que esteja em regata) não é chegar, mas o processo, que poderá ou não também exigir um rizo... a menos que o tempo esteja pra virar, ou a tua mulher esteja a bordo e exija a horizontalidade da terra firme (que é vez por outra a exigência da minha).
Velejar também exige uma certa dose de arte e outro tanto de ciência, do contrário jamais chegaria a um porto qualquer... o abatimento, consequência das correntes e ventos, te faria dar infinitas voltas no planetinha até que o julgasse enorme, mas sem nunca se aperceber que pequeno é você mesmo e seu barco nessa imensidão de água.
Velejar também exige um certa dose de proporção: a imensidão poderá significar apenas 10 metros de água entre você e o cais... É por isso que coloquei minha poita bem perto, pertinho do cais e isso tudo por causa do clube que disponibiliza um botinho bem pequeno pra embarque, com pouca borda livre e com uma afinidade medonha pra embarcar água quando o vento sopra, mesmo que moderado.
Cruzeiro tem dessas proporções: não importa se a viagem entre a cidade e o paraíso leve 12 horas (o paraíso mais perto é Ilha Grande) no meio do nada, na visão do horizonte e a terra mais próxima, mas se você estiver na cidade, o barco não pode ficar mais do que um passo do madeirame cracorento do cais, culpa do botinho de fibra!
No sofrimento do botinho, vez por outra atraco meu barco atravessado no cais. Antes consulto a tábua das marés pra saber se não vou encalhar, e saber se poderemos tomar um banho farto na madrugada. Esta vida de cruzeirista de cidade tem dessas coisas e desenvolvi esta técnica pra convencer minha Imediata que tem verdadeiro horror ao botinho de fibra em noite de "algum" vento.... coisas de cruzeirista de cidade!!! Rio de novo, mas não rizo, porque o tal vento não é lá nada de força 3...
É assim que se forma um cruzeirista! Comece por um acampamento no quintal, monte a barraca, mas tenha um chuveiro quente com secador de cabelo à disposição; depois ponha a barraca no fundo do quintal, quase rente ao muro, longe, muito longe de casa a ponto de exigir uma lanterna no caminho do banheiro (é importante que a casa esteja de luz apagada); depois vá pro barco e use minha poita (é pertinho do cais), mas se esqueça da lanterna.... é assim que se forma umA cruzeirista: alguma distância e uma lanterna, mas nunca use o botinho de fibra....
Cruzeirar exige alguns conhecimentos, um certo feeling sobre a mulher amada, um conhecimento de Capitão e a decisão da Imediata!!!"
De fato, o Elmo costuma aproveitar bastante o barco dele, sem necessariamente ter que preparar o barco com provisões, água, combustível etc. Ainda que um estilo um tanto diferente dos anseios da maioria dos velejadores, esse estilo do Elmo é bastante divertido e o deixa tão ou mais em contato com o barco e com o mar que a maioria dos demais velejadores.
É isso.
Até a próxima!!!
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
ATRAVESSANDO
Olá pessoal,
O Natal e o Reveillon foram ótimos, obrigado, mas infelizmente não posso dizer que o fim de ano e o começo de 2013 foram exatamente do jeito que eu queria. Nós havíamos programado uns dias em Paraty a bordo do MYSTIC, mas acabamos não indo. No dia da viagem o Gustavo passou mal e a Renata deu um jeito na coluna. Some-se a isso o calor record que fez naqueles dias e a prudência fez com que adiássemos, mais uma vez, o passeio. Já 2013 começou mal pra mim. Resumindo: um descuido, um escorregão e pronto! Seis semanas de molho com a mão engessada, consequência de uma fratura no 5º metacarpo.
Na impossibilidade de sequer poder guiar até Angra pra ver o barco, vou ocupar meu tempo tentando escrever artigos baseados em experiências vividas e outros relacionados ao nosso esporte.
Quando navegamos muito e durante muito tempo em um mesmo lugar, é natural que venha o desejo de ampliar nossos horizontes, testar nossos conhecimentos e nossa capacidade de enfrentar esse marzão.
Apesar das minhas primeiras travessias Rio x Angra x Rio terem acontecido no primeiro ano da minha vida de velejador, a verdade é que eu era, então, um mero inexperiente tripulante.
Só vim comandar um barco meu "lá fora" talvez uns 5 ou 6 anos mais tarde, depois de muito regatear aqui nas águas da Baía de Guanabara. Eu já tinha, então, o desejo latente de me por a prova e de visitar novos lugares a bordo da minha "casa" flutuante.
Com certeza estou longe de ser um velejador experiente em travessias, já que a maioria esmagadora delas foi aqui pro lado, Angra dos Reis, mas pelo menos essa, me sinto bastante à vontade pra conversar.
Eu gosto de começar a preparar minhas travessias com uns 10 dias de antecedência. Claro que isso considerando que o barco está apto a empreender tal viagem. Sempre vou conferindo alguns sites de previsão de tempo ao longo dos dias que antecedem a partida, checando vento e mar. Levo em consideração a fase da Lua e gosto muito de comparar tudo isso com as cartas sinóticas. Os mais de 20 anos de prática do surfe também me ajudam a compreender o padrão climático do momento e isso também é importante.
A viagem Rio x Angra x Rio é bastante peculiar. Todo o trecho é navegado no sentido E - W - E e praticamente não existem abrigos contra mau tempo. Não obstante este ser um trecho da costa brasileira onde não venta tanto assim e o mar costuma ser mais clemente, não se deve facilitar e escolher, inclusive, a melhor hora de zarpar.
Para efeito de análise, vamos dividir o percurso em 2 trechos: Um entre a Baía de Guanabara e a Ilha de Guaratiba e o outro composto pela Restinga de Marambaia. Na Restinga existe uma corrente que corre talvez umas 5 MN afastada da costa e normalmente no sentido E-W. Na hora de programar a rota, é bom levar essa informação em consideração, de forma a maximizar o desempenho do barco, aproveitando-a, ou desviando dela. O mar ali também costuma ser mais alto e mais agitado. Em compensação, acho que venta mais.
Para quem gosta de passar por ali de noite, navegando no visual, vai uma importante dica: a Restinga é muito baixa, quase ao nível do mar. Então, cuidado ao regular seu afastamento da costa através da observação da claridade das cidades litorâneas. A luminosidade que se vê ali na Restinga são de cidades que estão na outra extremidade da Baía de Sepetiba, umas 5 MN pra dentro e te dão a sensação de estar navegando muito afastado da costa, quando, na verdade você pode estar a poucos metros da praia.
Pra quem vai de Angra pro Rio, num dia de mar baixo, mas enfrentando o implacável (e tradicional) vento E, no cantinho da praia de Guaratiba existe o único abrigo que conheço. Se fundear bem perto da praia, junto a umas embarcações de pescadores que tem ali, é possível se esconder do vento e descansar um pouco, enquanto se aguarda o vento dar uma amainada.
Por falar em pescadores, vai uma consideração um tanto polêmica. O litoral do Rio até Angra é bastante frequentado por pesqueiros e traineiras e, como em qualquer lugar da sociedade, existem os bons e os maus pescadores. Já ouvi, mais de uma vez, histórias de traineiras abalroando veleiros na calada da noite, de maneira suspeita. Pescadores, em sua esmagadora maioria, são amigos bastante solidários no mar, mas não custa se prevenir, mantendo-se afastado deles durante a noite, até porque é grande a possibilidade de estarem arrastando redes e a última coisa que se pode querer no mar é ficar preso em uma.
Outra dica interessante é procurar navegar umas 2 ou 3 MN distante dos costões onde, invariavelmente, o mar é bem mais mexido, deixando a navegação ali bastante desconfortável. O trecho entre a Baía de Guanabara e Guaratiba tem vários deles. As ondas arrebentam nas pedras e se refletem, voltando mar adentro, onde se chocarão com outras que estão chegando e formando, assim, um desconfortável rebojo.
Eu costumo fazer minhas travessias durante a noite. Isto porque o mar é menos mexido pelo vento. Esta condição ocorre porque durante o dia o vento sopra do mar para a terra (o famoso maral), levantando aquelas inconvenientes marolas. Já durante a noite, com a inversão térmica, o vento passa a soprar da terra pro mar. Ora, como navegamos próximo à costa, não há pista para o terral levantar o mar, deixando a travessia bem mais confortável.
Nas travessias, minha tripulação é composta, invariavelmente, por pelo menos mais uma pessoa que, caso eu me acidente ou mesmo passe mal, seja capaz de conduzir o barco em segurança até um porto seguro.
Por fim, como diz o ditado popular, "quem tem amigo não morre pagão", sempre quando parto para uma travessia, principalmente de noite, costumo ter algum amigo "ligado", pra quem mando mensagens de tempos em tempos, reportando localização e condições naquele momento. Se acontecer algo, talvez esse expediente possa ajudar numa localização mais rápida.
Bem, as mal escritas linhas acima estão longe de encerrarem o assunto e, com certeza, devo ter esquecido de algo. Também, são considerações que funcionam satisfatoriamente pra mim, mas que podem soar como futilidades para outros. A intenção é enriquecer o debate com minha limitada experiência, da mesma forma que ficarei grato por críticas (as construtivas, por favor), sugestões e contribuições.
Bons Ventos.
| Ilha Grande ao fundo, em mais uma bela travessia |
Só vim comandar um barco meu "lá fora" talvez uns 5 ou 6 anos mais tarde, depois de muito regatear aqui nas águas da Baía de Guanabara. Eu já tinha, então, o desejo latente de me por a prova e de visitar novos lugares a bordo da minha "casa" flutuante.
Com certeza estou longe de ser um velejador experiente em travessias, já que a maioria esmagadora delas foi aqui pro lado, Angra dos Reis, mas pelo menos essa, me sinto bastante à vontade pra conversar.
Eu gosto de começar a preparar minhas travessias com uns 10 dias de antecedência. Claro que isso considerando que o barco está apto a empreender tal viagem. Sempre vou conferindo alguns sites de previsão de tempo ao longo dos dias que antecedem a partida, checando vento e mar. Levo em consideração a fase da Lua e gosto muito de comparar tudo isso com as cartas sinóticas. Os mais de 20 anos de prática do surfe também me ajudam a compreender o padrão climático do momento e isso também é importante.
| Quintal de casa |
A viagem Rio x Angra x Rio é bastante peculiar. Todo o trecho é navegado no sentido E - W - E e praticamente não existem abrigos contra mau tempo. Não obstante este ser um trecho da costa brasileira onde não venta tanto assim e o mar costuma ser mais clemente, não se deve facilitar e escolher, inclusive, a melhor hora de zarpar.
Para efeito de análise, vamos dividir o percurso em 2 trechos: Um entre a Baía de Guanabara e a Ilha de Guaratiba e o outro composto pela Restinga de Marambaia. Na Restinga existe uma corrente que corre talvez umas 5 MN afastada da costa e normalmente no sentido E-W. Na hora de programar a rota, é bom levar essa informação em consideração, de forma a maximizar o desempenho do barco, aproveitando-a, ou desviando dela. O mar ali também costuma ser mais alto e mais agitado. Em compensação, acho que venta mais.
Para quem gosta de passar por ali de noite, navegando no visual, vai uma importante dica: a Restinga é muito baixa, quase ao nível do mar. Então, cuidado ao regular seu afastamento da costa através da observação da claridade das cidades litorâneas. A luminosidade que se vê ali na Restinga são de cidades que estão na outra extremidade da Baía de Sepetiba, umas 5 MN pra dentro e te dão a sensação de estar navegando muito afastado da costa, quando, na verdade você pode estar a poucos metros da praia.
Pra quem vai de Angra pro Rio, num dia de mar baixo, mas enfrentando o implacável (e tradicional) vento E, no cantinho da praia de Guaratiba existe o único abrigo que conheço. Se fundear bem perto da praia, junto a umas embarcações de pescadores que tem ali, é possível se esconder do vento e descansar um pouco, enquanto se aguarda o vento dar uma amainada.
| Quebra galho para os dias de Lestada |
Por falar em pescadores, vai uma consideração um tanto polêmica. O litoral do Rio até Angra é bastante frequentado por pesqueiros e traineiras e, como em qualquer lugar da sociedade, existem os bons e os maus pescadores. Já ouvi, mais de uma vez, histórias de traineiras abalroando veleiros na calada da noite, de maneira suspeita. Pescadores, em sua esmagadora maioria, são amigos bastante solidários no mar, mas não custa se prevenir, mantendo-se afastado deles durante a noite, até porque é grande a possibilidade de estarem arrastando redes e a última coisa que se pode querer no mar é ficar preso em uma.
Outra dica interessante é procurar navegar umas 2 ou 3 MN distante dos costões onde, invariavelmente, o mar é bem mais mexido, deixando a navegação ali bastante desconfortável. O trecho entre a Baía de Guanabara e Guaratiba tem vários deles. As ondas arrebentam nas pedras e se refletem, voltando mar adentro, onde se chocarão com outras que estão chegando e formando, assim, um desconfortável rebojo.
| Paisagens surreais e momentos inesquecíveis |
Nas travessias, minha tripulação é composta, invariavelmente, por pelo menos mais uma pessoa que, caso eu me acidente ou mesmo passe mal, seja capaz de conduzir o barco em segurança até um porto seguro.
Por fim, como diz o ditado popular, "quem tem amigo não morre pagão", sempre quando parto para uma travessia, principalmente de noite, costumo ter algum amigo "ligado", pra quem mando mensagens de tempos em tempos, reportando localização e condições naquele momento. Se acontecer algo, talvez esse expediente possa ajudar numa localização mais rápida.
Bem, as mal escritas linhas acima estão longe de encerrarem o assunto e, com certeza, devo ter esquecido de algo. Também, são considerações que funcionam satisfatoriamente pra mim, mas que podem soar como futilidades para outros. A intenção é enriquecer o debate com minha limitada experiência, da mesma forma que ficarei grato por críticas (as construtivas, por favor), sugestões e contribuições.
Bons Ventos.
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