sábado, 23 de fevereiro de 2013

DE VOLTA AO PARAÍSO

Olá Pessoal,

Finalmente tirei, na semana passada, o gesso da mão. Por conta do tempo que fiquei imobilizado, não pude ir à Angra cuidar do barco, totalizando longos 2 meses distante das velejadas no paraíso.

Na 6ª feira passada, juntamente com meu amigo Gustavo, fizemos um "bate e volta" à Angra para dar uma limpeza no barco, ligar o motor e, claro, dar uma voltinha. Acabou que conseguimos fazer as tarefas e ainda deu tempo de atravessar para o Sítio Forte e almoçar no Bar da Telma, voltando pra Niterói no mesmo dia.

Gustavo (em pé) e o S. Orlando formaram comigo a tripulação do MYSTIC para esse passeio.

Com o sucesso da empreitada da semana passada, resolvemos repetir o "bate e volta" e voltamos à Angra ontem. Para esse passeio, convidei também meu ex-sogro, com quem mantenho contato até hoje e uma pessoa que gosto muito - um segundo pai para mim. Ele possui um veleiro na região também, mas praticamente não veleja, talvez por falta de companhia de quem entenda um pouco e, por causa disso, é mais um motivo para eu levá-lo em meus passeios.

Chegamos em Angra por volta de 10h, comemos um sanduíche e zarpamos com destino à Lagoa Verde, na Ilha Longa. A idéia era fazer um pit stop para um mergulho e seguir para a Praia da Tapera, para mais um almoço na Telma.


A Lagoa Verde é, na verdade, um cantinho espremido entre a Ilha Longa e a Ilha Grande. Suas águas são indecentemente transparentes e de um tom esverdeado muito bonito. 

Como ainda era relativamente cedo, não havia vento e por isso motoramos até lá. Pra falar a verdade, chegamos na Lagoa Verde junto com a entrada de um S/SW médio, que acabou nos desestimulando a parar, por causa das condições que poderiam piorar e também por causa de duas escunas que lotavam o local.

Da Longa até o Sítio Forte foi uma velejada agradável, apesar dos ventos bastante rondados daquele canto. Chegamos na Tapera e logo desembarcamos, pois o calor era forte e a água estava numa temperatura perfeita para um mergulho. Pedimos a famosa lasanha de peixe da Telma e fomos para dentro d'água.

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Enquanto almoçávamos, começamos a escutar trovoadas vindas do continente e notei que o tempo já estava bem escuro pras bandas do clube. Terminamos de almoçar e logo zarpamos, pois ainda tinha um ventinho razoável e a velejada de volta prometia.

Partimos do Sítio Forte com destino ao clube já cercados de chuva por todos os lados. O vento ainda soprava honestamente e por isso cortamos o motor e abrimos as velas. Por um descuido na hora de desligar a chave, acabamos desligando um automático que, a rigor, nunca funcionou direito, mas que se desligado, corta a ignição. No momento que o vento fraquejou, não teve santo que fizesse o motor ligar. Praticamente velejamos com ventos inconstantes e algumas pancadas de chuva até próximo do clube, quando após ter trocado bateria, verificado tudo que poderia ter quebrado, lembrei do bendito botão. A chegada, embora molhada, foi tranquila e já quase sem vento.

Óleo? Detritos? Só sei que é triste ver isso na Ilha Grande
A nota triste do passeio foi a enorme quantidade de peixes mortos, exalando um mau cheiro terrível que passamos na saída do clube e uma mancha esquisita que vimos quando nos aproximávamos da Lagoa Verde. Quando retornávamos para o clube, cruzamos  com uma enorme traineira dispensando mais de uma tonelada de pequenos peixes mortos na água. Depois, esses mesmos pescadores são os primeiros a reclamar que suas pescarias não são mais tão fartas e culpam a poluição e o progresso por isso. Talvez se não matassem tantos peixes pequenos, hoje haveria mais disponibilidade de pescado.

Bons Ventos e até a próxima!

Eu, S. Orlando e o Jarbas, nosso timoneiro oficial

As verdes águas da Lagoa Verde

O dia estava lindo

S. Orlando caminhando na Praia da Tapera

MYSTIC mais uma vez na enseada do Sítio Forte

Gustavo era só curtição

Eu e meu querido MYSTIC

A tripulação e o MYSTIC ao fundo

Velejada de retorno

Já na poita, se secando e arrumando para ir embora

domingo, 10 de fevereiro de 2013

UM CRUZEIRO A 20 METROS DO CAIS

Olá amigos, 

Quando se fala em velejar, qual prazer te satisfaz? Muito provavelmente a maioria de nós vai imaginar um sonho normalmente distante, ou quase inatingível para muitos velejadores - algo como um cruzeiro em alguma ilha paradisíaca, uma volta ao mundo etc.

Às vezes, não nos tocamos que, guardadas as devidas proporções, estar a bordo aqui, ali, ou lá, é praticamente a mesma coisa. O barco é o mesmo, os equipamentos idem... Em alguns casos, estar a bordo perto de casa pode até ter suas vantagens.

Numa manhã ensolarada de um dia desses, estava sentado na beira do cais do meu clube, observando alguns veleiros serenamente adormecidos em suas poitas, quando, de um deles - o Araken, sai o Elmo e dá uma baita espreguiçada. Ele pegou o botinho e veio ao meu encontro, me dar bom dia:

- Elmo, o que você tá fazendo aí a essa hora? - perguntei.
- Ué? Dormindo a bordo. - ele retrucou...

Lembrei que o Elmo e sua esposa costumam passar o final de semana a bordo com uma certa frequência ali mesmo, na poita, em frente ao clube. Normalmente eles saem para uma velejada pelas redondezas, mas sempre retornam à poita. Lembrei, também, que eu mesmo já havia feito algumas poucas vezes, esse "passeio". No meu caso, quase sempre pernoitava na minha poita quando desejava sair muito cedo no dia seguinte para algum lugar. Mas esse não era o objetivo do Elmo.

Bem, como achei uma sacada legal esse aproveitamento que ele e sua esposa dão ao barco, resolvi ouvir dele o que pensa sobre essa forma de curtir o barco. Segue abaixo o sempre bem humorado e perspicaz texto do nosso amigo cruzeirista:

"Velejar é uma das poucas artes que exige algumas doses de um pouco de tudo...

A maioria dos meus amigos velejadores gostam mesmo é de uma boa dose de adrenalina e uma sede medonha (é porque vez por outra todos de um barco e de outro gritam por água). É incrível ver os barcos se aproximarem (espera-se que joguem um pra o outro os embornais repletos do tal líquido), cascos quase se tocam e o grito de água aumenta, mas nada ocorre. Quer dizer: somente uma xingação, quase beirando ao xingamento, eclode no ar!

Às vezes tenho a plena certeza de que nenhum deles aprendeu os ensinamentos do RIPEAM. Certamente não manobrariam assim tão perto uns dos outros... Tenho certeza que, num veleiro, as idades diminuem. Parecem adolescentes... tanto no riso (entenda que é com "S", pois se fosse um "Z" a situação não estaria pra tantas risadas) quanto nos impropérios!!! 
Rio do verbo rir..

Velejar exige o riso como condição "sine qua non" da felicidade intrínseca do velejo, posto que o importante (a menos que esteja em regata) não é chegar, mas o processo, que poderá ou não também exigir um rizo... a menos que o tempo esteja pra virar, ou a tua mulher esteja a bordo e exija a horizontalidade da terra firme (que é vez por outra a exigência da minha).

Velejar também exige uma certa dose de arte e outro tanto de ciência, do contrário jamais chegaria a um porto qualquer... o abatimento, consequência  das correntes e ventos, te faria dar infinitas voltas no planetinha até que o julgasse enorme, mas sem nunca se aperceber que pequeno é você mesmo e seu barco nessa imensidão de água.

Velejar também exige um certa dose de proporção: a imensidão poderá significar apenas 10 metros de água entre você e o cais... É por isso que coloquei minha poita bem perto, pertinho do cais e isso tudo por causa do clube que disponibiliza um botinho bem pequeno pra embarque, com pouca borda livre e com uma afinidade medonha pra embarcar água quando o vento sopra, mesmo que moderado.

Cruzeiro tem dessas proporções: não importa se a viagem entre a cidade e o paraíso leve 12 horas (o paraíso mais perto é Ilha Grande) no meio do nada, na visão do horizonte e a terra mais próxima, mas se você estiver na cidade, o barco não pode ficar mais do que um passo do madeirame cracorento do cais, culpa do botinho de fibra!

No sofrimento do botinho, vez por outra atraco meu barco atravessado no cais. Antes consulto a tábua das marés pra saber se não vou encalhar, e saber se poderemos tomar um banho farto na madrugada. Esta vida de cruzeirista de cidade tem dessas coisas e desenvolvi esta técnica pra convencer minha Imediata que tem verdadeiro horror ao botinho de fibra em noite de "algum" vento.... coisas de cruzeirista de cidade!!! Rio de novo, mas não rizo, porque o tal vento não é lá nada de força 3...

É assim que se forma um cruzeirista! Comece por um acampamento no quintal, monte a barraca, mas tenha um chuveiro quente com secador de cabelo à disposição; depois ponha a barraca no fundo do quintal, quase rente ao muro, longe, muito longe de casa a ponto de exigir uma lanterna no caminho do banheiro (é importante que a casa esteja de luz apagada); depois vá pro barco e use minha poita (é pertinho do cais), mas se esqueça da lanterna.... é assim que se forma umA cruzeirista: alguma distância e uma lanterna, mas nunca use o botinho de fibra....

Cruzeirar exige alguns conhecimentos, um certo feeling sobre a mulher amada, um conhecimento de Capitão e a decisão da Imediata!!!"

De fato, o Elmo costuma aproveitar bastante o barco dele, sem necessariamente ter que preparar o barco com provisões, água, combustível etc. Ainda que um estilo um tanto diferente dos anseios da maioria dos velejadores, esse estilo do Elmo é bastante divertido e o deixa tão ou mais em contato com o barco e com o mar que a maioria dos demais velejadores.

É isso.

Até a próxima!!!